Você é o outro

Sempre que se relaciona com o outro, você julga negativamente ou positivamente. Mas qual é a diferença? Nenhuma.

Por isso, esteja atento a essas nuances da mente; ela acha interessante julgar o outro para o bem, mas quando você julga positivamente, a sua capacidade de julgar para o mal está implícita.

De qualquer forma, é raro julgar positivamente alguém. Note por si mesmo: você julga mais negativamente ou positivamente? O condicionamento da mente, a sua estrutura, funciona sob o aspecto de depreciar; ela acredita que colocando o outro para baixo, vai para cima. Então ela pratica apontar os defeitos dos outros para se sentir “por cima da carne seca”.

Mas isso só ocorre por pura ignorância. Você nunca sobe colocando o outro para baixo, pelo motivo mais simples de todos: você é o outro. Se você põe o outro para baixo, você vai para baixo.

Estou compartilhando um precioso segredo, guarde com carinho: o outro é você!

O labirinto da mente e seus espelhos

Ver para fora é o espetáculo esperado de você para manter a insanidade de pé. Ver para dentro é o oposto de ver o outro – apesar de que, ulteriormente, quando você vê a si mesmo, vê que você também é o outro. Mas para um começo de conversa, ver a si mesmo tem somente uma função: ver a sua mente.

Diante disso, é preciso estabelecer que a sua mente não é você. Agora você chega a um outro patamar, a uma outra dimensão de clareza.

Há enorme função em ver a sua mente, porque a sua mente, como ela é, não é você, ela é o outro. A sua mente, por não ser você, é outro. Mas a mente não quer que você a veja como você-outro, porque senão você desperta.

Observação é o gás desse processo. Porém não está condicionado em você, não está estruturado em você ver a sua mente funcionando. A mente é sempre usada para ver o outro. E quando vê o outro, o que ela faz, fundamentalmente?

Participante – Julga.

Ela julga. É bom saber que você está observando a própria mente, porque é exatamente o que a mente faz ao ver o outro: ela não vê o outro, ela julga o outro. Mas se ainda não percebeu, está na hora de ver: a mente é cega.

Portanto, pare todo o movimento. Aquiete-se. E encontre a si mesmo onde o outro não existe. E, melhor ainda, onde o outro é você.

O efeito da causa na realidade da ilusão

Ram Tzu acredita na lei da causa e do efeito, ele apenas não sabe qual deles é o quê.” – Wayne Liquorman

Adoro essa sentença!

Ele não sabe o que é o quê, não sabe se a causa é o efeito ou se o efeito é a causa. Adoro essa ideia! Porque, veja, segundo nosso condicionamento, as coisas acontecem porque houve uma causa, mas não é assim. As coisas simplesmente acontecem. Ou, para acontecerem, para serem efeito causam algo antes. Aqui, troca-se a posição da causa e do efeito.

A leitura do mundo, tão cartesianamente, é equivocada, é hora de começar a rever.

A ironia da frase é exatamente o fato de que ele até acredita que haja causa e efeito, apenas não sabe qual deles é o quê – se a causa é causa, se o efeito é efeito ou se o efeito é a causa ou se a causa é efeito. Quem sabe?

Não falemos de imaginação ou crenças! O fato é que temos pouquíssimos dados para construir a realidade. A realidade é muito mais vasta. O que temos como realidade não passa de uma ilusão de realidade.

Livre da mente, livre de si

A pauta da mente é não ter um Mestre, é “ser livre”; ela quer ser livre para permanecer inconsciente. Mas se olharmos de outra perspectiva, quando se entrava numa ordem de meditação, como a Zen, por exemplo, toda a sua “liberdade” era perdida. “Você” – a mente – não podia mais isso, não podia mais aquilo, nem aquele outro. Esses três pilares são fundamentais: nem isso, nem aquilo, nem aquele outro.

Se era tomada essa “liberdade”, era porque havia uma função. Pois qual era a liberdade que estava sendo perdida? Uma liberdade aparente, não verdadeira. A liberdade de ir ao supermercado, fazer sexo ou pensar o que quiser – isso não é liberdade, isso é, exatamente, uma situação condicionada da mente.

A verdadeira liberdade é estar livre da mente, é estar livre de quem você pensa ser, livre de quem os outros pensam que você é, é estar livre do pensar, livre de si mesmo.

Mas a mente não compreende assim, ela quer ser livre para “você ser você mesmo”. O que implica que ela não compreende uma questão fundamental: se você quer ser você mesmo, quem é você?

E aqui é onde entra o Mestre, porque enquanto você não souber quem você é, tudo o que você fizer será uma prisão. Até pode estar aparentando liberdade, mas não passa de uma prisão.

No momento em que você para de se enganar com a mente, o Mestre está cumprindo o seu papel. A verdadeira liberdade é ser livre de si mesmo.

Nem divino, nem profano. Isso!

A mente tem, por milênios, construído uma ideia de realidade baseada em pressuposições como, por exemplo, a de que você é o corpo e a mente. Eis o pivô central da ilusão equivocadamente chamada de “realidade”.

Baseados na crença de que somos o corpo, o que acontece quando a morte do corpo se dá? Sofrimento. Você teme ficar longe da sua família e do seu time de futebol. Mas se você não for nem o corpo nem a mente, como fica todo esse dilema? Questione-se profundamente e veja todas as ideias a respeito da realidade desaparecerem.

A humanidade está sofrendo exatamente por estar apegada a conceitos que geram e perpetuam o sofrimento – e não quer largá-los.

Participante – Houve antes, para você, algum apego, desejo ou ilusão maior que o impedia de reconhecer o divino em você?

Para “você” quem?

Participante – O Satyaprem.

Quem é Satyaprem? Você está imaginando. Note que até as perguntas são feitas a partir da sua imaginação. Você imagina que se perguntar o que imagina, a resposta que imagina vai tirá-lo de onde imagina estar. Mas isso não vai acontecer.

Como é mesmo a pergunta?

Participante – Se já houve algum apego, desejo ou ilusão maior que o impedia de reconhecer o divino em você…

“Eu” não reconheço o divino em “mim”, não há dois.

O poço sem fundo e a água sem lua

Quando a monja Chiyono estudava Zen, sob a maestria de Bukko, de Engaku, por muito tempo foi incapaz de atingir os frutos da meditação. Enfim, em uma noite de lua cheia, ela estava carregando água, num velho balde atado com bambus. O bambu se quebrou e o fundo do balde caiu e, naquele momento, Chiyono foi liberada. Em comemoração, escreveu um poema:

“Desta maneira e daquela eu tentei salvar o velho balde

quando a haste do bambu foi enfraquecendo

e estava quase se quebrando.

Até que ao final o fundo caiu,

não tem mais água no balde e não tem mais lua na água.”

Este poema ficou conhecido por essa frase bem sintética: “nem água, nem lua”. Na iluminação da Chiyono, desapareceu a água, desapareceu a lua. Na iluminação da Chiyono, nem água, nem lua.

Isso me lembra aquela famosa anedota do Nasrudin, um sábio persa, que vinha caminhando, em uma noite de lua cheia e, ao passar perto de um poço, ouviu um barulho vindo lá de dentro. O barulho o assustou e então ele se debruçou sobre o poço, olhou para dentro e viu ali a lua.

Rapidamente gritou: “Não se preocupe, vou salvá-la!” Entrou no poço para resgatar a lua e, de repente, na escuridão, escorregou e caiu dentro da água. Caído, ao olhar para o alto, deu de cara com a lua brilhante no céu. Então, sem hesitar, exclamou contente: “Nossa! Se eu não tivesse passado aqui, não teria te salvado”.

Isso é mais ou menos o que acontece quando o fundo do balde cai e você descobre que não tem água, nem lua.

As nuvens brancas do paraíso e o começo do fim

A mente propõe que o divino esteja distante – sabe-se lá onde: no céu, no Himalaia ou em Alto Paraíso, talvez. Mas ele não pode morar em um lugar e não em outro.

Pergunto: antes de tentar chegar a algum fim, por que você não explora o começo? Onde está o começo de tudo? Neste momento, note, onde começa tudo?

Retorne à fonte, comece pelo princípio: quem quer encontrar o divino? Onde você está que o divino não está? Uma investigação, por assim dizer, científica, implicaria em observar aquilo que você tem nas mãos primeiro e, depois, ver, verificar.

Se você sabe quem você é, pode estar separado do divino?

Você assume que está separado porque sempre ouviu isso. Então não se sente bem no seu trabalho, nas suas relações… Logo, sente que tem algo faltando e deduz que só pode ser o divino.

Mas trago uma tese, uma proposição: ao invés de estar faltando o divino, o que está faltando é você. No entanto, é muito mais vendável ir em busca do divino do que buscar a si mesmo.

Isso porque ir atrás de você, implica em desconstruir completamente a ideia que você tem de si – que, nitidamente, nem combina com você, tanto que você não tem se sentido muito bem.

Se essa visão que tem de si, essa imagem que tem de si, essa concepção que tem de si, esse você que você toma como sendo você, fosse, ao menos, próximo do real, você estaria em brancas nuvens.

A tese da mente é que falta o divino e que se o encontrar tudo vai ficar bem. Porém, digamos que você encontrasse o divino, pergunto: quem o encontraria? A questão fundamental é: quem é você?

O invisível e a inexistência do aparente

No contexto de Satsang, não estamos lidando com a aparência do outro, mas sim com a nossa própria. Você é quem aparenta ser para você?

A verdadeira liberdade não é ser livre para fazer o que quiser ou fazer aquisições capitalistas, a verdadeira liberdade é estar livre da aparência que você tem de si, é ser livre de quem você pensa ser.

Por isso, quietude é fundamental. Você tem que fechar os olhos por um instante para diminuir o impacto da aparência sobre a sua existência. Tem que haver um momento em que você não se liga ao que aparece na tela da mente como pensamento.

Digamos que você pudesse se relacionar com os seus pensamentos como se eles fossem nuvens no céu… Você segue as nuvens no céu? Elas desaparecem, não duram muito. Observe uma nuvem e veja: ela se modifica. Mesmo quando muito nublado, nota-se, há movimento. E de repente, surpreendentemente, tudo fica azul.

Encare, então, na tela dos pensamentos – da mente –, os momentos de turbulência como uma tempestade. Há diferença entre um céu sem pensamentos e um céu carregado de pensamentos.

Mas o que está implicado aqui não é afastar os pensamentos, é não dar tanta atenção a eles. Por que se importa tanto com o que você está pensando se talvez nem seja você que esteja pensando?

Namore com isso. Note! A condição em que nos encontramos, em termos gerais, não é leve, portanto é preciso ter acuidade e comprometimento para com a Verdade.

A pressão da mente para manter as aparências, inclusive a de quem você pensa ser, é potente; ela não quer que “você” desapareça, porque se ela desaparecer, perde a sua função. Ou, melhor dizendo, torna-se apenas – maravilhosamente – funcional.